Liderança e Gestão Circular - Modelo para um convívio pacífico

 

Nossos desejos de estar e viver em paz carregam um voto de boa-vontade, porém nos deparamos cotidianamente com a violência, o desconforto, a competição ansiosa nos grupos e relacionamentos, somos impactados por conflitos e com a destruição do planeta, e lidamos com a realidade de maneira que gera sofrimento e desarmonia. Em que medida nossa forma de ser e estar no mundo pode ganhar congruência com esse desejo pacífico primeiro? A investigação dessas questões pode nos levar à compreensão de como essa relação de dá e se retro-alimenta e é capaz de promover uma mudança de paradigma, ampliando nosso olhar sobre nós mesmos, o outro e o mundo. O artigo apresenta um método desenvolvido para grupos em formato de um seminário teórico-vivencial a partir de uma metodologia de educação para paz. Compreende um processo de sensibilização que transita pelos âmbitos das tradições, da filosofia, da ciência e das artes, facilitando a indivíduos e grupos experiências e reflexões que promovem uma nova dinâmica nas relações. Uma forma de comunicação não-violenta, efetiva e afetiva contribuindo para uma convivência mais pacífica e harmoniosa que converge para a construção do mundo que queremos estar e viver.

 

Palavras-chave: Paz. Cultura de Paz. Educação para a Paz. Liderança Circular. Convivência Pacífica.

 

1. INTRODUÇÃO

    Desejamos Paz. Há um anseio natural por uma condição pacífica em todos nós, saímos de nossas casas para os ambientes sociais que transitamos e não raro, nos solicitamos ou emitimos um voto de que o dia seja pacífico e que haja fluidez em nossa interação com o mundo. É imediata a constatação que os resultados que desejamos nem sempre convergem com esse intento. Ou vivemos ou estamos envoltos por notícias da ineficiente gestão dos conflitos interpessoais e não nos damos conta da urgência de ações no sentido de compreendermos como nossa forma de ser e estar no mundo gera e influencia a realidade que experimentamos e vivemos.

    Este artigo apresenta, com bases em uma pedagogia para uma cultura de paz, “A Arte de Viver em Paz”3, criada por Pierre Weil, fundador e primeiro reitor da UNIPAZ – Universidade Internacional da Paz – o desenvolvimento de um método em forma de seminário teórico-vivencial, oferecendo reflexões e vivências acerca de um modelo de gestão para um novo tempo, possibilidades de ação conjunta através de uma visão sistêmica a partir do círculo, resgatando modelos das tradições sapienciais e experiências contemporâneas, desenvolvendo habilidades para uma nova liderança, promovendo a inteireza do ser e a comunicação não-violenta.

    Vivemos e padecemos sob o que Weil (2000; 2012) chamou de “fantasia da separatividade” e este é o ponto de partida para compreendermos as bases da metodologia que ele desenvolveu:

    Esta separatividade talvez reconhecida ao nascer, estabelece relações de dualidade entre os sujeitos, entre sujeitos e objetos, entre sujeitos e a natureza. O binarismo dessa vivência institui saberes e fazeres nos diferentes campos do conhecimento [...] Superar tal fragmentação é investir na integração dos sujeitos através de suas inteligências física, emocional, mental e espiritual permitindo que essa integração se expresse em novas formas de relacionamento com a natureza e com a sociedade (SOBRINHO, 2012, p.13).

    A metodologia para uma educação para a Paz, base da Teoria Fundamental da UNIPAZ, compreende as chamadas três ecologias: Ecologia Pessoal (paz consigo mesmo) Ecologia Social (Paz com o outro) e Ecologia Ambiental (Paz com o Universo) em uma abordagem sustentada pelo paradigma transdisciplinar holístico e em experiências dos valores de uma cultura de paz desenvolvida através da holologia e da holopráxis.

    A holologia consiste no corpo de conhecimentos teóricos, de cunho explicativo e/ou descritivo, produzido através da Ciência, da Arte, da Filosofia e das Tradições, que levam à abordagem holística do conhecimento. A visão holística e o viver holístico, entretanto, necessitam do conhecimento de outra natureza: a holopráxis. Para Crema (1995), este é um conjunto de métodos que levam à vivência transpessoal e holística. Tais processos proporcionam vivências de caráter inefável, pois se situam na dimensão humana de transcendência, cujo significado escapa à representação na linguagem comum e no raciocínio lógico. Nestas ocasiões, é possível experienciar a indiferenciação de dois aspectos: o espacial, representado pela idéia de limites entre sujeito-objeto, e o temporal, representado pela perda da noção de linearidade do tempo. A mente está centrada no aqui e agora. Sem essas vivências, a visão holística permanece na compreensão meramente intelectual. A holopráxis, como conjunto, possibilita um caminho na direção da sintonia com o transpessoal, desencadeando o fluir da energia que se expande às demais dimensões constitutivas do ser humano. A holopráxis é um processo privilegiado de participação e impulsionamento da evolução do indivíduo, provocando mudanças na Consciência. A holopráxis, portanto, diz respeito à Psicologia Perene, contida nos caminhos vivos de espiritualidade orientais e ocidentais: as Tradições Sapienciais, especialmente as milenares, e também as escolas mais recentes, dedicadas ao despertar da espiritualidade autêntica. Em suma, holopráxis representa a qualitativa, via da meditação e contemplação (UNIVERSIDADE INTERNACIONAL DA PAZ - UNIPAZ, 2010, p.10-11).

    Tendo como norte esses pressupostos para a educação para a paz, neste artigo iremos discorrer a respeito do desenvolvimento e da formatação do seminário denominado “Liderança e Gestão Circular” e apresentar os resultados alcançados em grupos de indivíduos reunidos em círculos, configuração que promove uma visão integral, onde todos são vistos e ouvidos por todos, todos tem voz e importância; e que oferece continente à diversidade, abertura, confiança e comunicação pacífica. Dessa maneira, tal configuração objetiva dissolver a separatividade, sensibilizando o participante para uma nova relação consigo mesmo, com o outro e com o mundo, contribuindo para relações inteiras e cooperativas.

    O seminário é desenvolvido no formato de um workshop de 12 horas/aula contendo apresentação expositiva e teórica e dinâmicas de grupo envolvendo vivências, danças circulares e a construção de um trabalho artístico coletivo que demonstra simbolicamente como se dá a apropriação de seu conteúdo pelo grupo. Estes recursos consolidam princípios de inclusão, diversidade, valorização de talentos e a promoção e acolhida de lideranças circulares.

 

2. UMA METODOLOGIA PARA A CULTURA DE PAZ

 

    Uma das atividades do Curso de Formação Holística de Base da UNIPAZ compreende a criação de espaços de partilha e convivência abordando os pressupostos da visão holística da realidade preconizada por sua pedagogia.

  Assim foi desenvolvido um trabalho chamado “Círculos Holísticos no Costão - Experiência de Abordagem Holística em uma Organização Empresarial” que compreendeu um conjunto de atividades através de um circuito experimental de treinamento direcionado aos colaboradores de um empreendimento de hotelaria em Florianópolis SC, com adesão voluntária dos mesmos atingindo em sua vigência em torno de 450 pessoas (SALLES, 2006).

    Esta abordagem teve desdobramentos em atividades de outros programas: O Agentes da Paz na Escola desenvolvido pela Unipaz SC em escolas públicas em Florianópolis através de eventos com alunos do ensino fundamental tendo como objetivo a formação de alunos que atuam na promoção da gestão pacífica de conflitos no ambiente escolar.

    Também foi objeto de projeto de PPCC na disciplina de Psicologia Educacional: Desenvolvimento e Aprendizagem no Curso de Graduação Licenciatura em Filosofia da Universidade Federal de Santal Catarina no ano de 2012 com o tema: “O Fenômeno Bullyng – Ações Preventivas”, pesquisa apresentada em forma de painel no 22º Seminário de Iniciação Científica da Universidade Federal de Santa Catarina em Novembro de 2012.

    Das experiências advindas desse conjunto de atividades e da compilação de estudos a partir de um seminário intitulado “A Arte de Liderar em Círculo”, ministrado por May East4 ; da vivência prática da gestão em círculo no Conselho Gestor na UNIPAZ – Florianópolis SC nas gestões de 2007 à 2012; e da coordenação de seu Curso de Formação Transdisciplinar Holística entre 2010 e 2012, foi desenvolvido o seminário “Liderança e Gestão Circular”, objeto desse artigo, tendo por objetivo contribuir para a gestão pacífica de conflitos e a promoção da educação para a paz. Em função da relevância do trabalho desenvolvido, o mesmo foi inserido na grade curricular do curso extensivo oferecido pela Instituição no estado de Santa Catarina.

2.1 EDUCAÇÃO PARA A PAZ

    O preâmbulo do ato constitutivo da Unesco nos chama a atenção com a seguinte máxima: “as guerras se iniciam nas mentes dos homens, é nas mentes dos homens que devem ser construídas as defesas da paz” (UNESCO, 2002, p.2); e isso nos aponta a emergência de um novo paradigma que tenha por objetivo a educação para a paz e nos conduza a uma nova forma de ser e estar no mundo, e como bem sinaliza Dulce Magalhães:

  Não devemos nos mapear pelo padrão. Não é porque a maioria dos processos educacionais é limitante e limitada que devemos acreditar que esta é a forma correta ou verdadeira. A maioria só espelha a patologia coletiva, como o estresse é padrão nas grandes cidades e a neurose é típica da vida moderna. Isso não significa que o estresse e a neurose são as formas mais convenientes de vida. A maioria não determina o que é certo, só determina qual o padrão que se está seguindo. É momento de revisão de padrão (MAGALHÃES, 2008, p.14).

    Conforme Crema (2009), atual Reitor da UNIPAZ, estamos vivendo uma crise sem precedentes. Manifesta-se nos indivíduos e na sociedade, uma crise que nos oferece uma dimensão construtiva, um momento em que, na urgência da paz, da saúde, da inteireza do ser, é capaz de nos despertar oferecendo um campo fértil para alçarmos uma nova condição, um novo olhar, uma nova forma de caminharmos pela existência.

    É preciso compreender o quanto nos fragmentamos nos distanciando de nosso centro natural harmônico e de tudo o que é essencial em nossas relações e atividades, processo que gera uma retroalimentação destrutiva que nos convoca de forma urgente e nem sempre ouvida. Estamos sendo chamados a uma parada, ao silêncio e à escuta para o entendimento do nosso próprio ritmo e para darmos início a um movimento novo e mais alinhado com o mundo que queremos. Quando ouvimos uns aos outros percebemos que, apesar de toda diferença, ansiamos juntos pelos mesmos valores que nos unem como humanidade. Vale lembrar essa convocação nas palavras de Dulce Magalhães (2011, p. 28), ao pontuar que “enquanto não nos posicionarmos e não fizermos a escolha, viveremos no mundo que não escolhemos, nem desejamos.”

     A necessidade de tal escolha é nítida nas crises das relações, nas dificuldades na gestão de conflitos nos ambientes educacionais e empresariais, nas comunidades e grupos em geral e confirmam o alerta feito pela própria crise: o convite a escolhermos uma nova forma de gerir essa paz almejada e alcançarmos resultados diferentes. Não basta o desejo, o anseio apenas, é necessário a reflexão sobre “o como” e a ação assertiva no empreendimento para a construção desse intento.

    De forma a sermos eficazes nisso, é preciso investigar primeiramente o que temos disponível para trilhar a jornada, o que nos fornece uma bússola criativa e o mapeamento para nossa experiência no território da crise. Para tanto, a teoria fundamental da UNIPAZ apresenta o Mapa Transcultural da Inteireza do Ser:



Figura 1 – Mapa Transcultural da Inteireza do Ser (POZZATI, 2003)

 

    Este mapa propõe, ao transitarmos por quatro quadrantes, o simbolismo da interconexão dos mesmos da seguinte forma:

Os quatro elementos água, terra, fogo e ar convergindo, para o quinto elemento;

as quatro funções da consciência, pensamento, intuição, sentimento e sensação convergindo, para a inteireza do ser;

os quatro arquétipos, padrões instintivos universais, o líder, o sábio, o curador e o visionário, convergindo para o pontifex, o criador de pontes sobre todas as fronteiras;

os quatro saberes ou caminhos do conhecimento: as tradições, a ciência, a filosofia e as artes, convergindo para a construção de uma cultura de paz.

    A interconexão desses aspectos representam uma harmonização em distintos níveis sistêmicos dentro do paradigma transdisciplinar holístico promovendo um novo nível de consciência. Ao revisitarmos esses caminhos conduzindo-os à uma integração geramos um movimento de mudança qualitativamente diferenciado como guia para aprendizagem e comportamento. Tendo esse mapeamento como referência, na medida em que podemos observá-lo como um circulo ou uma espiral que nos conduz à um novo ciclo de experiências mantendo a observância da importância de cada quadrante, tomamos o mesmo como base para o desenvolvimento da proposta do seminário como veremos à seguir.

2.2 LIDERANÇA CIRCULAR

    No seminário “Liderança e Gestão Circular” partimos da apresentação de cunho expositivo dos saberes, estabelecendo o trajeto de um exercício reflexivo daquilo que cada um destes nos oferece, para o desenvolvimento da proposta. Faremos aqui uma suscinta exposição dos aspectos de cada um dos caminhos do conhecimento na forma que são trabalhados.

    Ao investigarmos as tradições (figura 1) naturalmente iremos nos deparar com os saberes dos povos originários e relembrar os grupos indígenas e nômades que estabelecem sua convivência a partir dos círculos, seja na forma das aldeias, nos acampamentos, na intenção de segurança e proteção uns dos outros ou nas reuniões de conselho das tribos. Nessas comunidades existe a figura de uma liderança, uma liderança holocentrada5, atenta as expressões e manifestações e também ao silêncio dos indivíduos que fazem parte desse círculo, de forma a definir o caminho mais seguro e produtivo para o coletivo.

    Quando se observa o modo como nosso Ancestrais tomavam decisões democráticas em suas reuniões de Conselho percebe-se um grande sentido de Unidade. Sempre que o bem de todos é colocado acima do bem de poucos, o Povo todo lucra, e tem-se assegurado um futuro pleno de abundância para todos. Através desses ensinamentos se percebe que, só quando o Povo inteiro está bem, cada indivíduo pode estar realmente bem (SAMS, 1993, p.218).

    Assim, o seminário se dá com o grupo reunido em círculo, onde se estabelece um centro simbólico representando uma chama, um luminar sagrado onde estão os valores que motivam o grupo a reunir-se, as decisões que promovem o bem de todos, a unidade, a sabedoria, estabelecendo conexão com todos, o todo e o princípio de confiança.

    Esta confiança é reforçada pelas tradições ao relembrarmos que nossos ancestrais dependeram desse princípio em milênios de experiência nomádica. Uma confiança mútua, fundamental, vínculos profundos que permitiram que nossa espécie sobrevivesse através dos tempos (DISKIN, 2002).

    No quadrante da ciência (figura 1) iremos encontrar fundamentação na “teoria dos campos mórficos” de Rupert Sheldrake (1995), campos estes que apresentam uma ressonância própria, arquetípica, invisível apresentada a partir da experiência designada “O Centésimo Macaco” (BOLEN, 2003, p. 25-26), que preconiza que quando um indeterminado número crítico de indivíduos de uma espécie modifica seu comportamento ou atitude, esse novo padrão gera uma consciência comunicada por ressonância para o grupo, afetando todo o sistema, sendo capaz alterar a cultura.

    Essa experiência, como uma alegoria, foi inspiradora para o movimento “O Milionésimo Círculo” de Jean Shinoda Bolen, uma “iniciativa [...] catalizadora de uma mudança ética, política e social, convergindo os movimentos contemporâneos, ambientalista, feminista, de espiritualidade feminina, e unindo mulheres dos quatro cantos do planeta numa agenda comum (EAST, 2003).” Embora esse movimento se dê com foco no feminino, por sua formação arquetípica circular conter familiaridade à psique das mulheres, contém uma adaptação aceitável, igualitária aos gêneros, intensificando a cooperação e aproximando emocionalmente pessoas em relações menos hierárquicas e colaborativas em torno de propósitos comuns. 

    Na filosofia (figura 1), encontramos entre outros filósofos, direção nas reflexões de Theodor W. Adorno, no texto “Educação após Auschwitz”, onde nos chama a atenção para que todo processo educacional tenha como objetivo atuar em prol de que eventos como o ocorrido em Auschwitz jamais encontrem possibilidades de se repetir, o que pontua de forma contundente:

    Para a educação, a exigência que Auschwitz não se repita é primordial. Precede de tal modo quaisquer outras, que, creio, não deva nem precise ser justificada. Não consigo entender como tenha merecido tão pouca atenção até hoje. Justificá-la teria algo de monstruoso em face da monstruosidade que ocorreu (ADORNO, 1995).

    E nos alerta:

    [...] é impossível pleitear amor em situações profissionais, como a do professor com o aluno, o médico com o paciente, o advogado com o cliente. O amor é imediatista e se opõe decididamente a relacionamentos arquitetados. A adesão ao amor – possivelmente na forma imperativa de que devemos proceder desse modo – é um componente da ideologia que preserva a frieza para sempre. Dela fazem parte a compulsão, a repressão, que se opõem à capacidade de amar. A primeira coisa a fazer seria, portanto, ajudar na conscientização da frieza em si e apurar os motivos que a ela levaram (IBIDEM).

    Olhar sob essa ótica, realizando um exercício de compreensão de nossos anseios versus os resultados que obtemos como humanidade, mesmo que seja doloroso revisitar fatos tão impactantes em nossa história, concorre de forma crucial para que nos conscientizemos da emergência de novos modelos educacionais. Modelos que alcancem os indivíduos através de outros canais de comunicação capazes de a partir de processos sensibilizadores dissolver as barreiras que fortalecem tal frieza e geram a separatividade. Vale também lembrar Victor Frankl:

    Portanto, fiquemos alerta - alerta em duplo sentido. Desde Auschwitz nós sabemos do que o ser humano é capaz. Desde Hiroshima nós sabemos o que está em jogo (FRANKLIN, 2005 apud CREMA, 2010)

    Por fim os participantes são conduzindo ao terreno das artes (figura 1),, onde encontramos as holopráxis que permeiam o seminário, capazes de conduzir os participantes à assimilação dos conceitos por canais de comunicação pouco usuais. Isso estabelece uma nova condição nas relações e promove a liderança holocentrada. As holopráxis proporcionam caminhos para que novos acordos sejam feitos e os antigos, revisados, guiando o grupo para o exercício da flexibilidade, da escuta atenta, do respeito e comunhão e por fim da celebração onde a mudança e o novo tem campo fértil para manifestação.

    Para tanto, são utilizadas danças circulares que oferecem como ferramenta possibilidades para que o grupo experiencie consciência, integração, autorresponsabilidade e comprometimento com o círculo. Além disso, as danças são recursos para o despertar de lideranças na direção, ritmo e unidade, capazes de conduzir o grupo a resultados harmônicos que favorecem a inclusão de todos os presentes no círculo no desenvolvimento das práticas como conclui Luciana Osteto:

    É mesmo um propósito das Danças Circulares trabalharem a tolerância, pois dançando não se discute ideias, toma-se uma atitude, coloca-se na roda a diferença, a intolerância, as divergências e fazemo-las rodarem (OSTETTO, 2005, p.45).

    As danças circulares e vivências propiciam o aparecimento, a expressão e o acolhimento das diferenças e revelam a importância da valorização de cada indivíduo para o movimento que permite a roda girar. As danças circulares propostas no seminário são conduzidas de forma a aumentar a cada vez que são sugeridas, o nível da exigência de atenção para consigo mesmo e com o grupo. Essas dinâmicas objetivam que os participantes possam identificar através dos resultados que obtém nas coreografias e movimentos do coletivo, o impacto que a jornada téorico-vivencial está produzindo no indivíduo/círculo. Ao ouvirmos anseios, necessidades, propósitos, articulam-se novas possibilidades geradas pelas descobertas que emergem no decorrer das atividades. As manifestações dos próprios participantes sinalizam quais são os valores capazes de manter a unidade, a comunhão e a dinâmica do círculo com toda a diversidade que contém.

    Os participantes são orientados a manifestarem essas constatações através de um exercício comum, utilizando materiais como papéis coloridos, recortes de revistas, adereços em uma colagem que resulta em uma Mandala6 coletiva tendo sua produção na etapa final do seminário. Esse momento convida o grupo a experimentar a abertura e a disponibilidade promovida pela jornada que empreendeu ao construir algo material cooperativamente, o que consolida o comprometimento com uma nova escolha para cada individuo e para o círculo. Uma oportunidade de exercitar os valores que o próprio grupo considerou como essenciais para sua sobrevivência e manutenção estabelecendo uma nova conexão. Ao empoderar as lideranças em confiança, a atividade é capaz de dissolver as barreiras do medo, da ansiedade e da expectativa em um processo de transformação que ocorre desde o centro do ser, em nível individual e desde o centro da mandala do círculo envolvendo à todos de forma efetiva e afetiva, manifestando o potencial receptivo e criativo que o círculo alcançou. O “fazer” a Mandala transpõe a competição e é realizada em cooperação, onde se experiencia o poder “com” o outro e não “sobre” o outro. O grupo vivencia no processo um “aprender a fazer” inovador e surpreendente para muitos transformando a visão de liderança. Na mandala são registrados os princípios e valores acordados para que, em um processo simbólico, essa nova perspectiva ganhe raízes nesse coletivo.

           2.2.1 VIVENCIANDO O CÍRCULO

    Aqui registramos dois eventos, realizados nas 12º e 13º turmas do curso de Formação da UNIPAZ nas cidades de Florianópolis e Balneário Camboriú (figura 1 e figura 2), respectivamente em Junho de 2013 e Novembro de 2014, alcançando em torno de 40 pessoas nos dois grupos. Os eventos obtiveram respostas positivas (tabela 1 e tabela 2), baseadas nas avaliações dos participantes, no que se refere a qualidade e exposição de conteúdo, desenvolvimento de dinâmicas, utilidade para harmonização de sentimentos e alcance dos objetivos propostos.

AVALIAÇÃO DO SEMINÁRIO / 2013

Excelente

Bom

Regular

Ruim

 1. Qualidade/Conteúdo do Seminário

18

06

 

 

Facilitador 2.1 Abordagem do tema

17

07

 

 

 2.2. Comunicação

18

06

 

 

 3. Dinâmica e/ou vivências

17

07

 

 

 4. Utilidade para harmonizar sentimentos

15

09

 

 

 5. Estado de Espírito após o seminário

15

09

 

 

 6.Minha Presença(consciente /participativa)

11

12

01

 

 7. Integração: Eu x Grupo

13

10

01

 

 8. O Seminário atingiu os objetivos propostos

18

06

 

 

9.Contribuição do Conteúdo do Seminário:

9.1. para meu auto-desenvolvimento

16

08

 

 

9.2. para a atividade que desenvolvo

15

09

 

 

 

Tabela 1 – ficha de avaliação do seminário “Liderança e Gestão Circular” da 12ª Turma do Curso de Formação Holística de Base da UNIPAZ – SC. Florianópolis, 2013.

 

AVALIAÇÃO DO SEMINÁRIO / 2014

Excelente

Bom

Regular

Ruim

1. Qualidade/Conteúdo do Seminário

17

 

 

 

2. Facilitador:

2.1. Abordagem do tema

17

 

 

 

 

2.2. Comunicação

16

1

 

 

3. Dinâmica e/ou vivências

16

1

 

 

4. Utilidade para harmonizar sentimentos

17

 

 

 

5. Estado de Espírito após o seminário

11

 

 

 

6. Minha Presença (consciente / participativa)

13

4

 

 

7. Integração: Eu x Grupo

14

3

 

 

8. O Seminário atingiu os objetivos propostos

17

 

 

 

9. Contribuição do Conteúdo do Seminário:

9.1. para meu autodesenvolvimento

15

2

 

 

9.2 para a atividade que desenvolvo

15

2

 

 

 

Tabela 2 – ficha de avaliação do seminário “Liderança e Gestão Circular” da 13ª Turma do Curso de Formação Transdisciplinar Holística da UNIPAZ – SC. Balneário Camboriú, 2014.

 



Figura 2 – Confecção da mandala coletiva do seminário “Liderança e Gestão Circular” - 12ª turma do Curso de Formação Holística de Base UNIPAZ SC – Florianópolis 2013


Figura 3 – Apresentação da mandala coletiva do seminário ˜Liderança e Gestão Circular” - 13ª turma do Curso de Formação Transdisciplinar Holística de UNIPAZ SC – Balneário Camboriú / 2014

    Durante a avaliação os participantes foram convidados a escrever como se sentiram com a proposta do seminário: Alguns feedbacks foram selecionados para representar a experiência alcançada pelo grupo e são importantes para demonstrar como a atividade é capaz de alcançar canais de comunicação e aspectos não usuais promovendo a nova visão de liderança que o seminário propõe.

“Este é um seminário que tocou no meu eu mais profundo. É na magia e na simplicidade do amor que tudo acontece.”

“Foi de grande harmonização para o grupo, a harmonia contaminou a todos.”

“Mais preparado para lidar com os desafios da gestão e da integração do conhecimento adquirido na prática diária.”

 “Me sinto bem. Com idéias criativas para transformar, ainda mais, o meio em que vivo.“

“Me sinto muito bem. Feliz e realizada por mais um aprendizado, para minha vida e também profissional.”

“Não querendo mais repetir minhas NÃO ATITUDES. Só hoje compreendi que a paz que tanto, minha alma almeja sentir, está em meu movimento e não em minha acomodação...”

 

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

    Liderança e Gestão Circular” propõe uma revisão dos padrões nos processos educacionais, ao retomarmos o conhecimento dos povos originários para compreendermos como nossos ancestrais chegaram até aqui; ao nos valermos das elucidações filosóficas dos grandes pensadores; ao acolhermos os avanços científicos com todas as benesses que a civilização e suas experiências nos legou; e ao vivenciarmos a arte com seu alcance capaz de nos sensibilizar a partir de nosso próprio reflexo. Essa revisão proporciona o encontro de um novo caminho ao retomar a direção da roda da vida, saindo do círculo vicioso que vivenciamos para transformarmos à realidade experimentando todas as possibilidades de acessar o círculo virtuoso que nos conduz à convivência pacífica.

    O seminário oportuniza a investigação de novas respostas em cada individuo que se propõe a realizar esse trajeto de reflexão com abertura e confiança sensibilizando o participante para a agência de um novo modelo para gerir suas relações, consigo mesmo, com o outro e com o universo.

    Através das manifestações e retornos nos participantes do seminário, no próprio desenvolver das propostas e no que o grupo acolhe como sentido e como seu, observamos equipes, comunidades e famílias proporcionando valiosas respostas a efetividade do método. Importante dizer que esse viver e enxergar o mundo como circular, onde me exponho além dos medos, sou visto, vejo, sou ouvido, ouço, elevo o debate ao diálogo, e onde não houver diálogo tomo consciência que pode existir respeito e convivência pacífica, também encontra ressonância ao ser utilizado em cada encontro, cada relacionamento e em cada interação com outro indivíduo.

    Essa visão integral e holística pode nos conduzir a experiências capazes de nos revelar de que forma temos caminhado, ampliar nossa percepção e consciência de que o mundo que habitamos é o exato reflexo da forma como o vemos internamente. E isso tudo pode ocorrer através de pequenas ações em pequenos grupos, pela abertura de lideranças comunitárias, de empresas, instituições educacionais, associações de pais e mestres, entre outras, a exemplo de bem sucedidas experiências que temos notícia ao redor do mundo onde as pessoas estão comprometidas com o propósito de cultura de paz. É absolutamente necessária a revisão de nossas referências internas acerca de nossos valores para o entendimento do que compreendemos como paz, amor, liderança e cooperação e de que forma essa compreensão gera e afeta a realidade que vivemos.

 Jairo Salles                  Orientadora: Profª Drª Sônia M. B. Tommasi


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Referências

ADORNO, T. W.. Educação após Auschwitz. Educação e emancipação. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995

BINDO, Márcia. Urbanismo sustentável: May East e a Gaia Education. 2010. Disponível em:<http://www.planetasustentavel.abril.com.br/noticia/cidade/may-east-gaia-education-576067.shtml>, acesso em: 08/11/2015.

BOLEN, Jean Shinoda, M.D. O Milionésimo Círculo. Como transformar a nós mesmas e o mundo. Um guia para círculos de mulheres. São Paulo: Triom, 2003.

CREMA, Roberto. "Pedagogia iniciática: uma escola de liderança". Petrópolis: Vozes, 2009.

DISKIN, Lia. Seminário “Ética e Visões de Mundo”. Seminário ministrado de 08 à 10 de novembro de 2002 no Curso Formação Holística de Base – UNIPAZ. Florianópolis: 2002.

EAST, May. Prefácio à edição brasileira. In: BOLEN, Jean Shinoda, M.D. O Milionésimo Círculo. Como transformar a nós mesmas e o mundo. Um guia para círculos de mulheres. São Paulo: Triom, 2003.

MAGALHÃES, Dulce. O Foco define a Sorte. A forma como enxergamos o mundo faz o mundo que enxergamos. São Paulo: Integrare, 2011.

MAGALHÃES, Dulce. Manual da Disciplina para Indisciplinados. São Paulo: Saraiva, 2008.

OSTETTO, Luciana Esmeralda. Educadores na roda da dança : formação – transformação. Tese de Doutorado do Programa de Pós Graduação da UNICAMP. Campinas: 2005.

POZATTI, Mauro Luiz. A busca da inteireza do ser: formulações imagéticas para uma abordagem transdisciplinar e holística em saúde e educação. Tese de doutorado. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: 2003.

SALLES, Jairo. Círculos Holísticos no Costão – Experiência de Abordagem Holística em uma Organização Empresarial. Trabalho de Conclusão de Curso da UNIPAZ (Obra Prima). Florianópolis: 2006.

SAMS, Jamie. As Cartas do Caminho Sagrado. A descoberta do ser através dos ensinamentos dos índios norte-americanos. 6ª edição. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.

SHELDRAKE, Rupert. A ressonância mórfica & a presença do passado: os hábitos da natureza. Lisboa: Instituto Piaget, 1995.

SOBRINHO, Glória. Introdução à 10ª edição, p.13 In: WEIL, Pierre. A Arte de Viver em Paz. Por uma nova consciência e educação. 10ª edição. Rio de Janeiro: UNIPAZ, 2012.

UNESCO. Constituição da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. Representação da Unesco no Brasil. Brasília: Unesco Brasília Office, 2002.

UNIVERSIDADE INTERNACIONAL DA PAZ. Eco-Formação Holística de Base - Manual do Aprendiz. Florianópolis: UNIPAZ, 2010.

WEIL, Pierre. A Arte de Viver em Paz. Por uma nova consciência e educação. 10ª edição. Rio de Janeiro: UNIPAZ, 2012.

WEIL, Pierre. A mudança de sentido e o sentido da mudança. Rio de Janeiro: Record – Rosa dos Tempos, 2000.

 

 



3  A 26a Assembléia Geral da Unesco recomendou o livro “A Arte de Viver em Paz” como um novo método holístico de educação para a paz em 1992, depois da publicação deste livro nos idiomas francês e inglês, hoje editado em vários idiomas.

 

4  May East, diretora do Gaia Education, programa vinculado à ONU que dissemina o conceito de urbanismo sustentável. Mora na ecovila Findhorn, Escócia, e viaja o mundo para impulsionar o movimento das cidades em transição (Transition Towns). Desde que foi criado há pouco mais de três anos, gerou mais 8 mil iniciativas de transição e 180 cidades oficialmente reconhecidas espalhadas pelo mundo (BINDO, 2010).

5  A Liderança Holocentrada. Quando criamos este termo, o definimos como sendo correspodente a uma pessoa, um ser humano que busca restabelecer-se como ser, quer dizer, alguém que entrou numa via de desenvolvimento holístico. [...] leva em consideração o homem nos seus planos instintivo-corporal, emocional, espiritual, a sociedade no plano da cultura, da vida social e política e da economia e a natureza nos seus planos de matéria, de vida e de informação, assim como o ser nas suas manifestações holodinâmicas inseparáveis, holoespaciais (espaço_, de holorradiação (energia) e holoconsciencial (consciência cósmica). A liderança holocentrada integra de modo harmonioso todas essas dimensões (WEIL, 2000, p.268).

 

6  Mandala é uma palavra sânscrita que significa Círculo e nos remete a essência, ao centro da experiência. Atualmente, na pesquisa de aprendizagem acelerada, a mandala é vista como um mapa neuronal, uma forma para acelerar processos de transformação e de alterar padrões mentais através do estímulo visual de cores e símbolos. [...] ao apreciarmos uma mandala estamos aprendendo novas formas de pensar e sentir o mundo e nos liberando do aprisionamento causado por padrões há muito tempo estagnados. É uma forma de dar uma mexida interna e proporcionar um espaço para novas aprendizagens. A mandala também nos ensina uma lição valiosa, pois não é possível ver o centro se estivermos muito perto. Precisamos de distância, de ampliar o espaço do olhar, para ver melhor o centro da mandala. Assim também é com a vida. Precisamos nos afastar de nossas certezas, parar de olhar tão de perto a existência, ampliando o olhar, para ser capaz de enxergar a essência, o centro organizador da vida (MAGALHÃES, 2008, p.19 -20).


Poder, Violência e Política

    

O presente ensaio é uma breve reflexão sobre as visões de Hannah Arendt e Max Weber sobre as intrincadas questões que envolvem as relações de poder, violência e liberdade. Tudo realmente dependerá do poder por trás da violência? Como identificar estes fenômenos e compreendê-los como são? Como examinar suas raízes e sua natureza ? O que é Poder ? Quem detém o poder? Qual o papel da filosofia política?

   Realmente no momento histórico em que vivemos, temos condições no século XXI  reformular estas perguntas e avaliar de forma mais clara onde nasce a violência e que correntes profundas movem o iceberg destes fenômenos,  onde nascem,  quais suas faces e sobre o que exatamente se discute?

   "Portanto, fiquemos alerta - alerta em duplo sentido. Desde Auschwitz nós sabemos do que o ser humano é capaz. Desde Hiroshima nós sabemos o que está em jogo.”(Viktor E. Frankl).

   Hannah Arendt levanta a questão da violência no campo da política referindo-se a relutância geral em tratar este tema como um fenômeno em seu próprio direito.  Discutindo o fenômeno do poder depara-se com um consenso político de que a violência nada mais é do que uma flagrante manifestação de poder, citando C. Wrigth Wills que diz  que “Toda política é uma luta pelo poder; a forma básica de poder é a violência” que reforça a definição de estado de Max Webber: “ domínio do homem pelo homem por meio da violência legítima, isto é, supostamente legítima.”  Arendt friza a estranheza de tal conceito que iguala poder político com “organização da violência”, o que só faz sentido se aceitarmos a estimativa de Marx de estado como um instrumento de opressão nas mãos da classe dominante.

   Se violência e poder estão relacionados precisamos compreender o que entendemos por poder, se é propriamente um instrumento de domínio, e domínio, logo deveria  assim sua existência “ao instinto de dominação”.  Arendt cita Alexander Passerin d´Entrèves, como o único autor de seu conhecimento que diferencia as duas coisas: “ Temos que decidir quando , e em que sentido “poder” pode ser diferenciado de “força” para averiguarmos de que forma o fato de usar força dentro da lei altera a qualidade  da força em si e nos sugere uma imagem totalmente diferente das relações humanas” já que a “força pelo próprio fato de ser qualificada, deixa de ser força”.  Porém sinaliza que mesmo nesta distinção não se chega a raiz da questão.

   As descobertas sobre um congênito instinto de dominação e uma inata agressividade do animal humano foram precedidas por afirmações filosóficas muito semelhantes. Sabe-se que o instinto de submissão, um desejo ardente de obedecer e ser dominado pelo mais forte é tão proeminente na psicologia humana quanto o desejo de poder, e politicamente, talvez segundo Arendt, seja mais relevante, e certamente estão interligados.

   Citando John Stuart Mill “Submissão pronta a tirania” não é causada sempre por “extrema passividade” , uma forte indisposição a obedecer é frequentemente acompanhada igualmente por uma forte indisposição para dominar e mandar.

   Leva esta reflexão tomando como ponto de partida o campo da tradição da experiência democrática da cidade-estado Atenas onde se tinha em mente um conceito de poder e lei que essencialmente não identificava poder na relação ordem-obediência ou lei com ordens.  Inspirados neste, os revolucionários do século dezoito, procuraram constituir uma forma de governo onde o domínio da lei repousaria sobre o poder do povo, tencionando por um fim ao domínio do homem sobre o homem, infelizmente ainda enfatizavam a obediência – as leis em vez de aos homens; sendo que o que realmente queriam era apoio as leis com o aval da coletividade.  Este apoio do povo empresta poder às leis, e em respeito à obediência difere da “incondicional obediência” que um ato de violência pode exigir.  Uma das diferenças que Arendt sinaliza entre poder e violência neste sentido é de que o poder necessita de quantidade, enquanto a violência que é baseada em implementos pode ocorrer sem isto., mesmo um controle legalmente irrestrito da maioria, pode ser terrível na supressão dos direitos das minorias e eficaz na sufocação de dissensões sem lançar mão de violência, e ainda assim não significa que sejam a mesma coisa.

   A forma extrema de poder para Arendt é Todos contra Um, a forma extrema de violência é Um contra Todos, e esta não é possível sem instrumentos.

   Arendt sinaliza que o mais crucial dos problemas políticos sempre foi e é a questão de “Quem domina Quem?” e Poder, fortaleza, força, autoridade, violência, apenas palavras consideradas sinônimos servindo para indicar os meios pelos quais o homem domina o homem.  Quando cessarmos de reduzir assuntos políticos a questão de domínio aparecerão ou será resgatada  em  sua autêntica diversidade os termos dados originais no campo dos assuntos humanos.

   Para Arendt, Poder corresponde à capacidade humana não somente de agir, mas de agir em comum acordo. O poder não pertence à alguém, sim a um grupo e sustenta-se enquanto este grupo permanece unido.  Dizer que alguém está no poder, quer dizer que este alguém está autorizado por um certo número de pessoas a atuar em nome delas. Poder é uma realização, para Arendt a política não é um meio, é um fim, e necessita de constante atualização, sob este ponto de vista de poder, significa o agir de forma plural, no campo na palavra e da decisão.

   Afirma que jamais existiu um governo baseado exclusivamente nos meios da violência. Mesmo o mandante totalitário, que tendo como maior instrumento de domínio a tortura precisa de uma base de poder.  Mesmo homens sozinhos, sem apoio de outros nunca terão suficientemente poder para usar a violência com sucesso.

   O poder está realmente na essência de todo governo, a violência não. O poder não necessita de justificação, pois é inerente a existência de comunidades políticas, e necessita sim de legitimidade.  A violência poderá ser justificada porém jamais será legitima e sua justificação perderá plausibilidade conforme seu fim pretendido se esvai no tempo.

   Enfim, apesar de fenômenos distintos, poder e violência aparecem juntos com frequência.  Não basta dizer que não são a mesma coisa.  Poder e violência se opõem para Arendt, onde um dominar totalmente o outro se extinguirá. Quanto maior a violência, menor o poder e vice-versa. A violência aparecerá onde o poder estiver em perigo, e se permitirem que ela siga seu caminho sem controle, ela destruirá o poder.  Enfatiza ainda que pensar no oposto da violência como não violência é uma redundância.  A violência pode sim destruir o poder, mas será totalmente incapaz de criá-lo.

   Diferente de Hannah Arendt, para Max Weber, a violência poderá no campo político e somente nele ocorrer de forma legítima precisamente para evitar que haja violência em outros campos, cita Trotski que diz  que “Todo o Estado se funda na violência”. Weber afirma que naturalmente que a violência não é nem o meio normal nem o único meio de que o Estado se serve, mas é realmente o seu meio específico. E há intima relação do Estado com a violência.  Assim diz, que o Estado seria a comunidade humana que, dentro de um determinado território (tendo este como elemento definidor “domínio”), reclama (com êxito) para si o monopólio da violência física legítima,o próprio estado só permite o uso da violência quando legitimada por ele próprio  Para Weber  em nenhuma outra forma de poder (pedagógico, econômico...) haverá possibilidade desta legitimação da violência.

   Falando em liberdade, enquanto para Weber a liberdade ocorre no campo político quando os governantes não estão submetidos à lei, por exemplo no estado de sítio (só assim o poder é decisivo), como no período da Revolução Francesa, a liberdade tem espaço enquanto a revolução se dá, em contrapartida para Hanna Arendt a liberdade é o exercício da política, partindo de um pressuposto consensual a partir do campo da opinião, viver politicamente é aceitar que se vive neste campo que é o da liberdade, da possibilidade do plural, que também inclui o dissenso.

   Webber fala sobre motivações internas de justificação para a relação de domínio do homem sobre o homem suportada pelo meio da violência legitima, sendo:

   Em primeiro lugar a legitimidade tradicional, do costume consagrado, com validade imemorial para determinado grupo, como a que exerciam os patriarcas de regimes antigos.

   Em segundo lugar; a autoridade do encanto, do carisma, a entrega puramente pessoal e a confiança, igualmente pessoal na capacidade e heroísmo que um indivíduo possui.  É a autoridade que tiveram os profetas, os heróis, os guias, chefes guerreiros.

   E por último, a legitimidade baseada na legalidade dos preceitos legais e na competência objetiva, ou seja fundada sobre normas racionalmente criadas, ou seja, na orientação para uma obediência à obrigações legalmente estabelecidas.

   Weber não é defensor claro de nenhuma destas três formas de legitimidade.

   De toda forma vivenciamos em nossa civilização como citados anteriormente, fatos tão contundentes  nos alertando para a urgência de refletirmos sobre poder, violência, liberdade, delimitarmos isto , atuar sobre e evoluir no campo das relações. 

   Será realmente possível esta organização no campo plural?  A realização não de um poder sobre, mas de um poder com, que dê continente a uma ressignificação destes conceitos e caminhe em direção a uma organização política que vá além da corporeidade e contemple o que todos buscamos juntos.

   É o retrato de uma realidade chocante quando Arendt fala, citando o exemplo de um incidente em uma universidade alemã, que trago agora para o âmbito de uma realidade atual e mais abrangente, sobre a recusa da maioria em tomar partido e atuar em algumas decisões, porque  ninguém tem vontade de fazer qualquer outra coisa pelo status quo além de levantar o dedo para votar.  Há o desejo de mudança, porém poucas atitudes que tragam concretude neste campo, tomando por modelo nosso contexto sócio-político atual, entre os que realmente desejam mudanças, percebe-se a fraqueza de investidas intermitentes e tímidas em relação a realidade que queremos mudar e revela-se tão clara a partir destas reflexões.

   Já estabelecemos os limites, e apesar da possibilidade de invocarmos o paradigma da “situação extrema” na tentativa de avançar da teoria para a prática neste campo, retomo a observação de Karl Barth, citado por Giorgio Agambem em “ O que resta de Auschwitz”:

   “De acordo com o que podemos observar hoje – escrevia ele em 1948 – pode-se afirmar com certeza que, até no dia depois do Juízo Final, se fosse possível, cada bar, ou dancing, cada grupo carnavalesco, cada editora ávida de assinaturas e de publicidade, cada grupo de politiqueiros fanáticos, cada reunião mundana, assim como cada cenáculo cristão agrupado em torno de sua imprescindível xícara de chá, e qualquer sínodo eclesiástico, procurariam reconstruir da melhor forma possível e continuar como antes sua atividade, sem serem absolutamente afetados nem anulados, sem ficarem seriamente modificados de ontem para hoje.  Nem os incêndios, nem as inundações, nem os terremotos, nem as guerras, nem as epidemias da peste, nem sequer um eclipse do sol ou qualquer outra coisa que se queira imaginar podem levar-nos por si mesmos à angústia verdadeira e, posteriormente conduzir-nos, talvez, à verdadeira paz.”

   Há necessidade de compreender que o oposto à paz, não é o conflito, mas como já preconizava o milenar Livro das Mutações Chinês há 3000 anos, a partir do hexagrama exatamente oposto ao hexagrama da paz, que seu oposto é a estagnação.  O conflito, o bom combate sim é um caminho para a paz, e certamente no campo da opinião, da decisão, da pluralidade em que Hannah Arendt situa o poder, pode-se estabelecer o poder com e a partir deste atuar sobre os conflitos sem  a necessidade do uso da violência, sem dúvida haverá debate, que pode evoluir ao diálogo, e o que não encontrar diálogo há de encontrar convivência pacífica.  Na arena mundial, o olhar sobre a história e a “situação extrema” já carregam material suficiente para saber o que queremos e o que não queremos como humanidade, podemos seguir aniquilando os oásis dispensadores de vida, alimentando tudo o que generaliza as condições do deserto ou nesta mesma arena havendo boa vontade, ação e bom combate encontrar o campo é fértil para dissolver a separatividade, a inércia e a estagnação.

   De que forma a filosofia poderá contribuir com a política, para além da mera teorização acerca dos fenômenos ?  Quais são as ferramentas disponíveis ? Insistindo que o passado já nos legou mais que o suficiente e conforme Arendt vivemos hoje em um mundo em que nem mesmo o senso comum faz mais qualquer sentido, e percebo isto como muito atual, isso significa que, o que Hannah Arendt mesmo afirma, o problema com relação à filosofia e a política, ou a necessidade de uma atualizada filosofia política da qual pudesse surgir uma nova ciência da política, está novamente e cada vez mais em pauta.]

                                                                                                                              Jairo Salles

Florianópolis, Outubro 2011

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Bibliografia:

1.      A política segundo Max Weber: conceito de política; ética e política -Texto: A política. In: O político e o cientista. Trad. port. Lisboa, 1979, pp.7-41; 73-99.(Há outras traduções, inclusive aquela, mais acessível, da Editora Martin Claret

2.      .O conceito de poder segundo Hannah Arendt: poder e violência - Texto: Da violência (excerto). In: Crises da República. S. Paulo, Perspectiva, 1973, pp.166-133.Subsídio/comentário: DUARTE, André. Modernidade, biopolitica e violência. Acessível em:http://pphp.uol.com.br/tropico/html/textos/1558,1.shl. Auxiliar: ARENDT, H. Filosofia e política. In: A dignidade da política. Rio de Janeiro, Relume-Dumará, 1993, pp.91-115;

3.      ARENDT, Hannah. Sobre o deserto e os oásis. Trad. port. de S.A In:  LEIS, H.R. & ASSMANN, S.J. Críticas minimalistas. Florianópolis, Cidade Futura, 2007.;

4. AGAMBEN, Giorgio O que resta de Auschwitz. O arquivo e a testemunha. Trad. port. Selvino Assmann. S. Paulo, Boitempo, 2008, pp. 9-17 (apresentação de Jeanne M. Gagnebin), e pp..19-48, e pp.165-169

Vida e Morte

 

O objetivo deste ensaio é o de produzir um texto filosófico a partir de uma obra de arte à minha escolha. Considerando a trajetória e a proposta do Curso de Filosofia da Psicanálise, pensava a partir de que tipo de obra de arte, poderia honrar as reflexões que o mesmo me proporcionou e optei por uma obra presente em boa parte das casas, pelo menos daqueles de minha geração ou região: os quadros pintados a partir de cópias de fotografias de família por pintores anônimos, geralmente feitos para casamentos, talvez um modismo da época. Sempre pensei, também tendo facilidades em desenhar copiando, que o artista mesmo na cópia deixa uma marca de sua presença dando um tom muito pessoal a partir da sua visão e interpretação do que vê. Pode ser considerado uma Obra de Arte ? Quem poderá determinar isto ?

    Este é o quadro celebrativo do casamento de meus pais, onde junto a eles, figuram meus avós paternos. Evidentemente o que evoca sobre mim ou outro membro de minha família será muito particular, distante do efeito que causará à outros.

    O quadro, sempre presente em meu campo de visão na infância, raramente ganhando um olhar mais demorado, já não tem lugar na sala de estar da casa dos meus pais , e sim, jaz sem moldura em alguma caixa de guardados. Hesitei em relação a esta escolha, até o momento em que meu sobrinho, a meu pedido o fotografou no RS e enviou-me a imagem digitalizada via email.

    No momento em que o arquivo abre-se, tocado pela emoção, dissiparam-se as dúvidas.... de imediato neste contato com a obra ressoaram em mim as palavras de Merleau Ponty que mesmo que não se referissem a visão sobre uma obra de arte, fizeram sentido para mim neste olhar, são as que seguem...

    “... ser visto por ele, existir nele, emigrar para ele, ser seduzido, captado, alienado pelo fantasma, de sorte que vidente e visível se mutuem reciprocamente, e não mais se saiba quem vê e quem é visto. ..“(Merleau-Ponty, 1964, 135.)

    “O que há então, não são coisas idênticas a elas mesmas que, em seguida, se ofereceriam ao vidente, e não é um vidente vazio antes de tudo que, em seguida, se ofereceria a elas, mas alguma coisa de que não poderíamos estar mais perto senão lhe apalpando com o olhar, porque o olhar mesmo as envolve, as veste com sua carne. De onde vem que, fazendo isto, ele as deixa em seu lugar, que a visão que nós as tornamos nos parecer vir delas” (MPonty, 1964, p.173).

    Recordo também dos conceitos de “aura” de Walter Benjamim que cita esta experiência aurática nas palavras de Proust:

    “ A experiência aurática se dará a partir das semelhanças e correspondências não sensoriais entre a natureza animada e inanimada, apreendidas pelo olhar do artista e isto proporcionará a ponte entre o objeto observado e o observador que será arrebatado em um momento fugidio pelos ....traços inconscientes do passado que são magicamente reativados”...(Proust)

    E exatamente esta ponte se dá, a pintura-fotografia extática ganha vida ao meu olhar, sou visto por ela, existo nela e um turbilhão de lembranças de histórias contadas e recontadas e histórias vividas desfilam carregadas de emoções diferentes diante de mim....reativando traços inconscientes do passado no quadro que carrega um “valor de culto” por compor-se de imagens de meus ancestrais e na névoa que, sob as imagens convida à entrega, à impermanência, como se esta névoa começasse lentamente a dissolver as imagens, ameaçando dissolver qualquer lembrança destas vidas, destas histórias, que inexoravelmente se perderão neste processo e chegará o tempo em que não haverá resquício de nenhum delas em nenhuma memória futura. Surpreendo-me a olhar a mim mesmo a partir do quadro, tenho sensações, algumas familiares, outras novas, estranhas... Uma parte de mim tende a querer arriscar-se a falar sobre o “indizível” que se manifesta neste mergulho e anseia por vazão, outra procura firmar nas memórias mais precisas, nas recordações mentais que tentam dar conta da forma, da análise, do conhecido.

    O desejo mais presente é o da liberdade, liberdade do pensar, do sentir, da expressão, do ser, liberdade para permitir o fluxo das palavras que chegam sem preocupar-me com requisitos , avaliações e julgamentos, e decido que o ponto de partida deverá ser a história, a memória.

História

    Meu olhar fixa-se no homem à esquerda, meu avô paterno, Sérgio, o avô que não conheci, falecido alguns anos antes de meu nascimento. O homem vivo nas histórias, vivo em mim principalmente no olhar de minha avó que lembrava com freqüência minha semelhança física e de índole com o mesmo. O homem simples, no interior do RS, amante do campo, defensor dos animais, com ávido desejo de conhecimento que o faz aprender a ler praticamente só, e que neste esforço lê e relê um pequeno livreto com a história de “Pinóquio” que conta e reconta com gosto a quem quer ouvir.

    Minha avó, à direita, Eva, nome da grande Mãe da Tradição, revela para mim o olhar no futuro onde já se identifica a angústia sobre os desdobramentos da prole de sete filhos, por não estarem mais sob sua guarda, espalhando-se no mundo, sentimento quem sabe, apaziguado por sua memória prodigiosa, que guarda sem erro o aniversário de cada filho e neto, para quem levará na data certa algo bem simples para presentear, geralmente um sabonete, (o que permite suas condições), a mulher que após o almoço reserva sempre um prato caprichosamente servido e envolto em um pano de prato, reservado no cuidado e na expectativa que um filho ou neto apareça de surpresa em sua casa; a avó que no leito de morte em um momento me chamava conscientemente para estar a seu lado, ora delirava alertando quem estivesse próximo de que deveria acordar-me para que eu não perdesse o horário do trabalho.

    Do olhar de minha Mãe, vou além para dar conta da memória dos que vem antes não presentes na imagem....minha Avó Maria, outra referência a uma Mãe de todos, a mulher à frente de seu tempo, ousada, que rompe com a condição e a época e foge da cidade para fazer um curso profissionalizante e na intenção do retorno, não encontra escuta, encontra barreiras e na dor deixa o casal de filhos pequenos para trás, a vida a leva à Porto Alegre da época, onde surpreendendo pela coragem e ousadia torna-se motorista de táxi, tal qual Ulisses, objetiva voltar atrás e levar ao mínimo a menina consigo quando tiver condições, e no retorno com tom vitorioso para a época , de avião à terra natal, encontra a menina, minha mãe, com 16 anos já em vias de casar-se, o que a faz seguir sem olhar para o passado por muito tempo.

    Meu avô materno, Oly, a dor da revolta pela decepção, configura o homem forte que se agiganta na adversidade, tornando-se pai e mãe, ao mesmo tempo em que trabalha muito, desdobra-se na doçura do homem que encontra tempo para criar a menina, minha mãe envolta em laços e fitas, cuidando para que os filhos tenham acesso ao cinema e ao aeroclube. O coração aberto lhe traz um novo amor, mais filhos e ainda espaço para adotar uma menina. Me chegam fortes imagens de sua luta contra o câncer na garganta que o leva embora e a viva memória de um de nossos últimos contatos presenteando-me com uma revistinha na porta de minha casa. Saudades destes queridos...para sempre....

    Meus Pais, os jovens no centro, Norma e Juvenal, ela com 16 anos, ele por volta dos 21, os olhares inocentes, que quaisquer que sejam seus planos neste momento estarão muito aquém do que a vida os trará. Muito em breve os filhos começarão a chegar, serão cinco, quatro mulheres e eu, e os netos, neste momento dez e um bisneto. Os jovens na imagem enfrentarão as dúvidas, os medos, a dor, a morte, a escassez, mas viverão certezas, prazeres, alegrias. O menino, que abandona os estudos no primário para auxiliar os pais no trabalho no interior, a menina que convive sem a Mãe, e encontra a responsabilidade no auxílio na criação dos meio-irmãos e muito cedo no cuidado da própria família. Sondo esta trajetória e nos sonhos dos jovens apaixonados no encontro inusitado na vizinhança, as escolhas,...os caminhos....o amor...e neste campo revisito as motivações que os fizeram os avós amorosos que são.

Visões

    Na medida que consigo vê-los nesta condição, os julgamentos se desfazem também no convite dado pela mesma névoa e meu olhar e coração vão além das figuras que cada um representa e os livro do peso que carregam, Pai, Mãe, da expectativa pelos seres supra-humanos, conhecedores do bem e do mal, os alivio das cargas e enxergo os seres humanos que foram-são, e descubro dentro das visões de mundo, circunstâncias e saberes de cada um que sou encarnação do desejo de ser feliz dos que me antecederam.

    Penso na morte, na presença do fim, nas minhas primeiras constatações sobre ela, na morte contada de meu avô materno ou de uma irmã que antecedeu-me e durou horas, no primeiro contato real com a perda, na ocasião da morte de minha avó, segunda mulher de meu avô materno, Sudária, a avó materna que conheci, minha memória clara da infância trás imagens da avó que nos criava em torno de antigas latas de bolachas e carinho. Marcadamente minha primeira perda real aos cinco anos de idade e a seqüência de mortes de meu avô materno, avó paterna, materna, tios, amigos, as cerimônias fúnebres, a escola próxima a um cemitério que convidava a mim e a meus colegas a transitar com tranqüilidade em meio às lápides, investigando fotografias, nomes, histórias....Consciente do inevitável imagino a chegada do momento da passagem de meus pais, ou irei eu antes deles ? Acolho no coração este agora e aquieto meu peito, confiando no processo da vida, que tudo será como deve ser, e receberei a passagem, deles, de outros amados, ou a minha com abertura, e desejo que a morte chegue em momentos em que a dignidade esteja viva, a troca ainda se estabeleça com qualidade, que quem sabe possa ser também uma escolha interna se a vida trouxer alguma circunstância em que a morte seja mais agradável do que arrastar-se pela existência, com consciência, sem ilusões ou apegos que nos fazem querer manter o sopro a qualquer custo, as vezes demasiado alto e doloroso.

    Não me esforço em encontrar sentido, afinal haverá? Gozo o sopro manifesto que me sustenta e ampara, lembro que fui perguntado uma vez sobre o que, se fosse tirado de mim, tudo se perderia e respondi: “paixão”. Sigo apaixonadamente em minhas escolhas, nos vários quadrantes da vida, escolho meus amores, prazeres, cidade, estudo, trabalhos a partir desta paixão e meu desejo é fazer diferente, mas com intensidade, dançando esta experiência da qual só podemos tagarelar sobre, afinal. Que os ciclos se cumpram, em profunda confiança.

    Retenho novamente o olhar sobre a obra e meus queridos retratados ali e desejo intensamente libertá-los de qualquer coisa que possa aprisioná-los, das roupas e laços apertados, quero soprar sobre eles, revivê-los, revisitar a força vital, ampliar o espaço, iluminar seus olhares e dar-lhes voz, e dou conta que são todos desejos para mim mesmo. Lembro-me que não darei por opção e circunstâncias continuidade através de filhos a esta história, e continuidade de algo se deve haver configura-se em minha própria vida, as marcas de meus passos pela existência, deixadas nos encontros com o outro, nas partilhas e este é o chamado de minha totalidade e inteireza aqui e agora, e... respiro profundamente, abro o peito, esgoto as emoções, solto a voz, vivo e celebro, olho novamente a obra e a impermanência se revela mais uma vez no pequeno rasgo na imagem à direita, o que agora faz parte da composição do quadro, e ele me conta de ilusões, de planos desfeitos, de lutas sem sentido, me conta de força, de motivações, de desejos além da medida, me fala de crença, de fé, pacifica meu ser na certeza e no acolhimento de que cada um dá de si o que pode, a partir de sua compreensão de mundo e das circunstâncias que se apresentam. Sinto um grande e profundo amor e gratidão e a melhor maneira de honrar tudo isto será caminhar com grande liberdade, respeitando meus “sim´s” e meus “não,s”, para que sejam cada vez mais verdadeiros. Os passos de cada um dos retratados ou lembrados fizeram-me quem sou, resulto deles e acrescento um mistério só meu, e meus passos ressoarão neste sistema, impulsionando os que chegam a este círculo.

    E a teia da vida ri e faz troça de mim, no gozo do grande mistério nas imagens de meus sobrinhos (que compartilho abaixo): de minha sobrinha de três anos Isabella, soprando bolhas de sabão, que simbolizam o efêmero e no olhar luminoso e sorriso fácil de meu sobrinho Lucas que completa um ano em dezembro próximo, pontos mais novos desta tecitura, brotos mais tenros desta árvore....e minha sensação diante do absurdo e da graça deste exercício onde me redescubro, me atualizo e me reinvento é de alegria, celebração de algo que não encontra códigos ou interpretações e vibro em amor no silêncio que toma conta de mim neste eterno agora.


                                                                                                                          Jairo Salles




Eu não sou eu.
Eu sou alguém que caminha a meu lado.
Que permanece em silêncio quando estou falando.
Que perdoa e esquece quando estou irado, esbravejando.
Que segue sereno quando estou aflito, sofrendo.
E que estará de pé quando eu estiver morrendo.
Eu não sou eu.
Eu sou alguém que caminha a meu lado.

(Juan Ramón Jiménez)

 

Florianópolis, Novembro de 2011



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